02/03/2010

Engenharia contra o caos


No dia 12 de janeiro, os olhos do mundo se voltaram para o Haiti, o país mais pobre das Américas. Um forte terremoto de magnitude 7 na escala Richter atingiu a capital Porto Príncipe e outras três cidades, destruindo mais de quatro mil prédios, além de deixar um saldo de 230 mil mortos, 300 mil feridos e um milhão de desabrigados. Em meio à tragédia – que também matou 22 brasileiros, entre militares e civis –, a engenharia militar brasileira reafirmou seu importante papel na história do sofrido país caribenho. Além dos trabalhos que já fazia, desde sua criação em 2005, a Companhia de Engenharia de Força de Paz – Haiti tem auxiliado na retirada de escombros, no resgate de vítimas, na desobstrução de vias e no recolhimento e sepultamento de corpos deixados pelo terremoto.


No comando da companhia está o tenente coronel Vladimir Pires Pinto. Ele chegou ao Haiti uma semana após o terremoto e contou com exclusividade para a Voz do Engenheiro, por telefone, diretamente da Base General Bacellar, a dez quilômetros do centro de Porto Príncipe, como funciona a rotina da companhia e os trabalhos de reconstrução do país.

VOZ DO ENGENHEIRO – Quantos são os militares da Companhia de Engenharia?
VLADIMIR PIRES PINTO - Nosso efetivo é de 250 homens, divididos em três grupos. A parte administrativa, de aproximadamente 30%, envolve o pessoal do rancho (provisionamento), do almoxarifado, compras, médicos, comunicações e relações públicas. Outros 20% são do pelotão de equipamento: motoristas, operadores de escavadeiras, carregadeiras, tratores e outros maquinários. O restante da companhia é nossa mão de obra especializada: engenheiros, mecânicos, eletricistas, topógrafos, bombeiros, carpinteiros. Temos dois capitães engenheiros de fortificação na companhia, formados pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), que fazem os projetos e coordenam as obras de construção


V.E. – Que tipo de trabalho a Companhia tem feito desde o primeiro comando, de 2005?
PIRES PINTO – Principalmente asfalto, pavimentação, perfuração de poços e construções verticais diversas. Na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), nós somos os únicos que temos uma usina de asfalto. E a demanda por asfalto aqui é muito grande. Quando o Force Commander (o responsável pelo comando de todas as tropas militares no Haiti, função ocupada pelo Brasil) determinou a mudança de alguns contingentes para a fronteira, nossas equipes foram lá fazer instalações hidráulicas, elétricas e dormitórios para as tropas da Minustah. Já fomos requisitados inclusive para fazer serviços na base logística da ONU, órgão quase todo formado por civis. Fizemos drenagem e boa parte do asfalto dentro das instalações deles. Também perfuramos poços para diversas tropas no Haiti. Antes do terremoto, a média de perfuração de poços era de um a cada 20 dias. Na parte de construção, fazíamos pequenas obras, mais especificamente para as tropas. Excepcionalmente, a engenharia apoia, por tradição, alguns orfanatos do país.


V.E. – Como tem sido a rotina da tropa nas últimas semanas?
PIRES PINTO – Depois do terremoto, os engenheiros praticamente não pararam aqui na companhia, fazendo vistorias em diversos lugares. Muitas das nossas bases menores espalhadas pela capital sofreram danos com o terremoto e as estamos recuperando. Hoje (10/2), por exemplo, só está o pessoal administrativo na base. O restante está todo espalhado em Porto Príncipe. Nós temos uma gama muito grande de atribuições aqui.

V.E. – Vocês têm encontrado dificuldades para trabalhar após o terremoto?
PIRES PINTO – Algumas das obras estão atrasadas porque não conseguimos encontrar materiais de construção e peças de reposição de equipamentos para comprar. A demanda por obras aumentou muito e estamos sentindo dificuldade em encontrar suprimentos. Ou estão muito caros, ou não existem. Antigamente, tinha um pequeno comércio aqui que supria a gente. Com o terremoto e as lojas destruídas, certos materiais de construção e peças sumiram. Há uma semana não existia cimento na cidade, por exemplo. Agora, aos poucos, a situação está voltando a se normalizar.


V.E. – Há estimativa de quanto tempo será necessário para reconstruir o país? Algumas autoridades falam em pelo menos dez anos.
PIRES PINTO – Não dá para precisar, porque há uma evolução relativamente rápida de certas coisas e de outras não. Por exemplo, eu cheguei no dia 20 de janeiro, uma semana após o terremoto, e não dava para transitar por algumas ruas. Hoje, você já passa por algumas delas e não tem mais destroços, os escombros já sumiram. Por outro lado, tem partes da cidade em que a gente passa e não houve mudança nenhuma, continua como estava logo depois do terremoto. É tudo muito relativo.


V.E. – Do que mais carece o Haiti, no momento?
PIRES PINTO – É difícil dizer, por que as carências daqui são todas muito grandes. Para a população, hoje, creio que seja alimentação, que está quase regularizada, e a parte da água, inclusive para as nossas tropas. Nós somos encarregados de furar os poços e está cada dia mais difícil encontrar água para fornecimento das tropas.


V.E. – O que foi mais marcante, desde a sua chegada ao Haiti?
PIRES PINTO – Ver a reação tanto da tropa de engenharia como da tropa da infantaria em atender o povo haitiano. Mesmo com a morte de militares no terremoto, ninguém deixou de prestar socorro, atender os feridos, até além de sua capacidade. Nosso médico, mesmo, salvou algumas pessoas que ficaram aqui na nossa porta. Nosso pessoal fez várias patrulhas para resgatar sobreviventes nos escombros. Trabalharam diuturnamente. Em momento nenhum eu os vi se preocupando consigo mesmos, com a sua segurança, o seu conforto. Só se preocuparam em resolver o problema dos outros. E salvaram o máximo possível de gente. Na noite do terremoto, o pessoal da companhia viu que não havia morrido ninguém por aqui, que havia apenas alguns danos nas instalações, e partiram logo para a cidade para resolver os problemas por lá. Ficamos sabendo que teve gente da tropa que trabalhou 72 horas sem parar, só para tentar resgatar as vítimas. Pessoal da operação de equipamentos, da segurança, praticamente todos que estavam aqui da companhia foram para a rua. Só ficou o mínimo aqui para segurar.


Saiba Mais
Além da Missão
Criada em 2005 a pedido da ONU para apoiar as forças que compõem a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), a Companhia de Engenharia de Força de Paz – Haiti (também conhecida como BRAENGCOY) tem efetivo de 250 militares, que são substituídos a cada seis meses, e é uma das três divisões da operação das tropas brasileiras no Haiti. A ela juntam-se o Batalhão de Infantaria de Força de Paz – BRABAT, com 770 militares e o Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais – BRAMAR, com 240 militares. Oficialmente, a missão da Companhia é fornecer apoio de Engenharia para as tropas da Minustah, suas instalações e infraestrutura, dentro da área de responsabilidade (Haiti). Segundo balanço do Exército, na prática, em apoio às operações desenvolvidas pela Minustah, a Companhia também realiza pequenas obras de interesse público e com finalidade social, como o asfaltamento de ruas e estradas, abertura de poços artesianos, urbanização de praças, reforma de escolas, além de ações cívico-sociais (ACISOs), nas quais os militares ajudam orfanatos locais. Todo esse trabalho ajuda a criar um elo de confiança com a população haitiana, facilitando os trabalhos da missão.


Ascom/Crea-PB
Fonte: Andrés Gianni - do jornal Voz do Engenheiro, do Sindicato dos Engenheiros no DF (Senge-DF)




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